"Adriana achava que dia de chuva era bonito. Pintava panos de prato junto com a avó e passeava de bicicleta no laguinho ao lado do lado do lado de lá do prédio onde morava. Brincou de boneca até os doze e queria casar virgem mas não aguentou. Se apaixonou apenas uma vez e a sua paixão ainda pulsa por dentro, corre feito cavalo chucro às vezes. Até coice já deu em alguns momentos. Gosta de música clássica mas não conta pra ninguém porque todo mundo a acha metida quando comenta. Leu tudo de Clarice Lispector e adorou. Leu tudo de Hilda Hilst mas não tem certeza. Pega todo dia o mesmo ônibus no mesmo lugar à mesma hora todo dia.
Paulo Márcio acha que trabalhar enobrece e enriquece. É teimoso e gosta de sorvete, mas acha que sorvete faz mal e só vai comer depois que remover as amígdalas. Joga na Sena e, às vezes, na Esportiva. Ouve punk e quer aprender gaita um dia. Corria na praia mas machucou o tornozelo. Andava no calçadão mas encheu o saco. Ia comprar um Playstation mas achou melhor não. Se apaixona quase todo dia e nunca duas vezes vezes pela mesma mulher. Lê Rubem Fonseca e acha tudo engraçado. Pega todo dia o mesmo ônibus no mesmo lugar à mesma hora todo dia.
Fez o destino que ambos cruzassem,
lado a lado,
sobre rodas e barulho.
Olhos nos olhos, amor à primeira vista,
rumando a esmo,
no mesmo fluxo.
Nunca mais se viram
depois do sinal aberto…
Mesmo assim tão longe,
mesmo assim tão perto".
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